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HEM coordena equipe de resposta rápida no atendimento a familiares das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho

Em uma sala da Academia de Polícia Civil de Minas Gerais (Acadepol), um adolescente, acompanhado por uma jovem mulher, aguarda para fornecer material genético que será utilizado em exame de DNA, na tentativa de identificar sua mãe, que desapareceu com o rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da mineradora Vale, na Mina Córrego do Feijão, no início da tarde do dia 25 de janeiro, em Brumadinho.

Em outras salas do mesmo prédio, vários psicólogos, além de médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e assistentes sociais, se revezam para ouvir e prestar atendimento emocional e clínico (no caso de alguma intercorrência) às dezenas de pessoas que, desde a manhã de sábado, dia 26 de janeiro, chegam à Acadepol e ao Instituto Médico Legal (IML), na tentativa de localizarem seus familiares mortos ou desaparecidos.

Eles são acolhidos e atendidos pela equipe multiprofissional de resposta rápida, coordenada pela médica infectologista do Hospital Eduardo de Menezes (HEM), da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Lucinéia Carvalhais. O grupo é formado por 19 a 24 profissionais que trabalham em regime de plantão, todos os dias, das sete horas da manhã, às oito horas da noite, num total 13 horas diárias.

Muito humanos

A jovem mulher é taxativa em sua avaliação, “o atendimento da equipe multiprofissional é perfeito. A gente chega e várias pessoas nos dão atenção, eles estão sendo muito humanos com a gente. Agora é aguardar”, conclui emocionada.

O serviço instalado na Acadepol (que conta ainda com um pequena enfermaria, montada no dia 26 de janeiro), é uma ação da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), que visa o apoio aos familiares das vítimas e a integração com as ações da Polícia Civil, com coordenação do HEM. Lucinéia Carvalhais ressalta que, desde o primeiro momento, houve uma integração muito grande entre as equipes da Acadepol e do IML, com o grupo coordenado pelo HEM. “Houve muito alinhamento, qualidade e confiança mútua”, reforça.

Resposta rápida

Organizada, entre o final da noite do dia 25 (sexta-feira) e a madrugada do dia 26 (sábado) de janeiro, para atender ao pedido do subsecretário de Vigilância e Proteção à Saúde da SES-MG, Dario Brock Ramalho, a equipe de resposta rápida, formada em sua maioria por profissionais do HEM, conseguiu resultados expressivos até o último domingo, 03 de fevereiro, nove dias após o rompimento da barragem que matou 134 pessoas (das quais 120 foram identificadas) e deixou, até o momento, 199 desaparecidos (conforme dados da Defesa Civil divulgados no dia 04 de fevereiro). Segundo Lucinéia, “as três horas da manhã do dia 26, havia escala para três dias. A escala ficou robusta, não houve nenhum momento de afluxo de famílias que superou a capacidade de atendimento da equipe”.

Foram 219 famílias acolhidas por psicólogos; 54 familiares atendidos por médicos, enfermeiros e também psicólogos, na enfermaria montada na Acadepol; 495 coletas de amostras de DNA de 225 famílias (são coletadas amostras de 2 a 3 familiares por desaparecido); 176 questionários preenchidos de saúde e hábitos dos desaparecidos; 669 ligações para agendamento de coleta de amostras para exame de DNA. E mais 1.613 procedimentos além dos descritos acima, sem considerar as ações e os contatos para montar a equipe e a estrutura de atendimento a partir da noite do dia 25 de janeiro.

Além disso, de acordo com Lucinéia, os familiares das vítimas que residem em outros estados, e não têm condições de se deslocarem até Belo Horizonte, serão localizados pela rede nacional de IML’s para a coleta de material nas cidades onde vivem, numa ação que será definida pela Polícia Civil de Minas e as dos demais estados do país.

Ação coordenada

Após conversa prévia com o superintendente de Polícia Técnico-Científica da Polícia Civil de Minas Gerais, Thales Bittencourt de Barcelos, o subsecretário da SES, Dario Ramalho, contatou Lucinéia Carvalhais às 19h30 do dia 25 de janeiro e pediu a ela que o Hospital Eduardo de Menezes, pela experiência na resposta rápida em saúde e no treinamento em atendimento a múltiplas vítimas, atuasse no apoio clínico e psicológico às famílias que buscassem o Instituto Médico Legal (IML). “O HEM tem expertise na resposta rápida, quase em tempo real, principalmente a partir dos eventos do H1N1(2009) e dos treinamentos para a Copa das Confederações (2013) e Copa do Mundo de Futebol (2014). Os profissionais do HEM se atualizam de forma sistemática, no contexto de atendimento a catástrofes e na expertise de organização de equipes para respostas rápidas”, esclarece a coordenadora.

Com a solicitação do subsecretário, Lucinéia se viu diante da necessidade de reunir uma equipe potente de saúde mental. Para isso, acionou coordenadores de cursos de Psicologia que conhecia. As respostas vieram da coordenadora do curso de Psicologia do Uni-BH, Maria Eugênia Costa Machado, e da psicóloga especialista em atendimento em casos de catástrofes do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), Lilian Garate. Além dos profissionais de psicologia, também responderam ao chamado de Lucinéia, a coordenadora do curso de Enfermagem do Uni-BH, plantonistas de Unidades de Pronto Atendimento (UPA’s) e hospitais de várias localidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte e de outras regiões de saúde como Divinópolis e Barbacena.  

Adaptação à demanda

Segundo Lucinéia, a catástrofe exige pessoas com capacidade de resposta imediata e de adaptação à demanda, o que não inviabiliza a atuação de especialistas. “Não há nenhuma pretensão de substituir serviços especializados e as expertises de outras áreas, a exemplo da saúde mental. O HEM está coordenando a equipe multiprofissional em razão de sua capacidade de organização e de resposta imediata”, pontua.

Devido às características do ocorrido em Brumadinho, várias pessoas da mesma família são atendidas, ao mesmo tempo, por psicólogos e, em algumas circunstâncias, pelos clínicos da equipe, como, por exemplo, em casos de picos de pressão, ansiedade alta etc, decorrentes de abalos em seu estado emocional. “A equipe clínica atua no primeiro suporte, se houver algo grave, a gente atende, mas o perfil da enfermaria é dar o primeiro suporte em casos de eventos mais graves de saúde. A partir daí, a rede SUS é acionada”, ressalta a médica infectologista.

Devastados

As psicólogas Izabel Cristina da Silva Reis e Maria Regina Ziviani contam que os familiares e amigos das vítimas chegam devastados e custam a acreditar no que aconteceu.  Izabel está na equipe desde a madrugada do dia 26. Ela trabalhou como voluntária em Mariana, em 2015. Segundo ela, “as pessoas chegam muito chorosas, cansadas, com fome e sede e se recusam a comer e a beber. Ao contarem sobre o que aconteceu choram muito”. Já Regina ingressou na equipe no dia 27. “Nós estamos acolhendo de uma maneira discreta, não estamos sendo invasivos”, esclarece. Regina afirma que “busca trabalhar o sentimento de dor das pessoas, o sentimento de perda que se mistura com revolta”.

Os psicólogos estão distribuídos por todas as portas de entrada das famílias (seja na Acadepol ou no IML), que vêm em busca de notícias sobre os desaparecidos ou do reconhecimento dos corpos. Médicos e enfermeiros fazem a anamnese detalhada de toda a história de saúde e hábitos dos desaparecidos, de forma conjunta com os servidores do Instituto Médico Legal.

DNA

No domingo, 27 de janeiro, a equipe coordenada pelo HEM passou a atuar também no processo de coleta de material para exame de DNA, pois a equipe do IML, devido à demanda atípica, necessitava de reforço urgente. A equipe multiprofissional assumiu ainda a acolhida aos familiares e a orientação sobre os exames, além de verificar a adequação das pessoas a serem submetidas ao exame de DNA, pois, prioritariamente, deve ser o pai ou a mãe, e, numa segunda hipótese, devem ser investigados os filhos e sua mãe. Somente na ausência desses indivíduos, são examinados os irmãos das vítimas. Lucinéia sublinha que a coleta de DNA é um procedimento que gera muito sofrimento psíquico para os familiares e que, portanto, deve ser realizada o mais rapidamente possível, de modo a não criar ainda mais ansiedade com a espera.  

Rede SUS

“A gente não criou aqui um serviço autônomo, é um serviço de resposta rápida do Sistema Único de Saúde (SUS). Há o encaminhamento, quando necessário, a todos os outros serviços da rede SUS, mediante contato prévio. Reconhecemos a potência da rede SUS, o estado e o município responderam prontamente, de forma imediata, aos nossos pedidos de encaminhamento”, destaca a médica infectologista e coordenadora da equipe multiprofissional, Lucinéia Carvalhais.

A enfermeira do HEM, Fabiana Vieira, conta que os profissionais do hospital foram acionados na sexta-feira, à tarde, para atenderem a possíveis pacientes vindos do Hospital João XXIII, de modo a se liberarem vagas no HPS para o atendimento às vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho. De acordo com ela, pouco tempo depois, foi acionado o plano de atendimento em situações de catástrofes do HEM. “A equipe se mobilizou em 10 minutos e foram preparados leitos no CTI e na enfermaria”, destaca Fabiana. Com a desmobilização do plano no João XXIII, o HEM foi acionado pela SES para montar a equipe da Acadepol. “É uma experiência ímpar, eu tenho vivido a dor com eles e, ao mesmo tempo, temos que ser fortes, pois estamos cuidando de vidas que perderam vidas”, resume a enfermeira.

Abordagem telefônica

Ainda segundo Lucinéia, o acolhimento e a escuta dos familiares são também realizados por telefone e contam com uma equipe formada por profissionais do HEM e do IML. Do dia 26 de janeiro ao dia 03 de fevereiro, eles realizaram quase 700 ligações para o agendamento da coleta de amostras para o exame de DNA.

A coordenadora estratégica do HEM, Katrine Rodrigues, afirma que, em média, cada ligação se estende por 25 minutos e que a abordagem é firme e objetiva e, ao mesmo tempo, cuidadosa. “A gente se sensibiliza com a dor do outro. Temos que lidar com o inesperado, ter um olhar para o cuidado com o outro”, pondera. Katrine ressalta ainda que as demandas diárias requerem grande flexibilidade e capacidade técnica da equipe, “nós estamos aqui de forma voluntária, com uma carga horária superior à do nosso cotidiano de trabalho, fazemos isso por amor ao próximo”.

Instituto Raul Soares em Brumadinho

Desde o dia 30 de janeiro, equipes multiprofissionais do Instituto Raul Soares (IRS), da Fhemig, estão sendo deslocadas para atuarem em Brumadinho, junto à Atenção Básica do município, no suporte e apoio psicossocial da população atingida pelo rompimento da barragem da Vale. Os plantões diurnos contam com seis profissionais, que atendem  no Centro de Atendimento Psíquico-Social (CAPS), na UPA e nos territórios de Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira e Casa Branca. Há ainda plantões noturnos e aos fins de semana no Hospital Municipal João Fernandes do Carmo.

De acordo com a gerente assistencial do IRS, Juliana Motta - responsável pela articulação das equipes na unidade -  as ações são estruturadas pelo Comitê de Operações de Emergência na Saúde (COES). A Coordenação de Saúde Mental do Estado e a Atenção Básica de Brumadinho determinam as estratégias de atuação no local. “Em uma situação de catástrofe, como essa, contar com esses organizadores é fundamental para uma definição da linha de trabalho. É também um grande aprendizado. Logo que fomos demandados, fizemos uma reunião com o corpo clínico do hospital, definimos as equipes e organizamos as escalas. A intenção é manter a oferta ali, estar disponível para a escuta dessas famílias e realizar os atendimentos de acordo com o que é levantado e orientado pela Atenção Básica, a partir do que já conhecem da população”, explica.

A gerente assistencial ressalta o envolvimento dos profissionais no atendimento aos atingidos pelo rompimento da barragem. “É impressionante como a Fhemig tem se mostrado completamente disponível e disposta a prestar essa assistência. Os profissionais do IRS, ao serem convocados, demonstraram adesão total. Todos se prontificaram a ir para Brumadinho a qualquer dia ou horário. A solidariedade, a presteza dos profissionais diante da tragédia é emocionante”, afirma.

Preparo para atendimento em catástrofes

A enfermeira especialista em Saúde Mental do IRS, Ana Tereza Medrado, é uma das servidoras que tem se deslocado para Brumadinho. Ela revela que, nesse tipo de situação, as demandas são diversas e exigem bastante dos profissionais envolvidos. “Atuamos com o acolhimento das famílias, prestando um apoio emocional e psicológico, com rastreamento de riscos e vulnerabilidades dos moradores, e também projetando a assistência a médio e longo prazo. A atuação em tragédias não é fácil. Mesmo para quem lida com o sofrimento mental todos os dias, a situação é de uma extensão muito maior do que se pode imaginar. Isso mexe muito com a gente também”, diz.

A enfermeira do IRS, Vanessa Regina Oliveira Tavares, pondera que a atuação em tragédias como a de Brumadinho exige uma vivência e sensibilidade especiais em saúde mental e em situações de catástrofes. “É uma demanda que muda a cada instante, imprevisível. A mobilização dos voluntários é realmente impressionante. No entanto, nem todos têm aporte exigido pela situação para realizar esse tipo de atendimento. Em algumas circunstâncias, nós, profissionais referenciados pelo município, tivemos que acolher famílias já atendidas por voluntários, pois a abordagem tinha sido invasiva e desestabilizado ainda mais as pessoas. A necessidade de escuta é constante. Os próprios profissionais de saúde de Brumadinho, nesse momento, precisam desse acolhimento, pois também perderam amigos e familiares. Por isso, nossas equipes têm desempenhado um papel fundamental na assistência”, conclui.

Por Alexandra Marques e Fernanda Moreira

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